O Sagrado e o Profano by Mircea Eliade

O Sagrado e o Profano by Mircea Eliade

Author:Mircea Eliade [Eliade, Mircea]
Language: por
Format: epub
Publisher: Le Livro
Published: 2003-10-14T00:51:46+00:00


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gestos divinos, e isto é verdadeiro não somente para as religiões primitivas, mas também para todas as outras religiões. Em toda parte, o calendário festivo constitui um retorno periódico das mesmas situações primordiais e, conseqüentemente, a reatualização do mesmo Tempo sagrado. Para o homem religioso, a reatualização dos mesmos acontecimentos míticos constitui sua maior esperança, pois, a cada reatualização, ele reencontra a possibilidade de transfigurar sua existência, tornando a semelhante ao modelo divino. Em suma, para o homem religioso das sociedades primitivas e arcaicas, a eterna repetição dos gestos exemplares e o eterno encontro com o mesmo Tempo mítico da origem, santificado pelos deuses, não implicam de modo nenhum uma visão pessimista da vida; ao contrário, é graças a este “eterno retorno” às fontes do sagrado e do real que a existência humana lhe parece salvar-se do nada e da morte.

A perspectiva muda totalmente quando o sentido da religiosidade cósmica se obscurece. É o que se passa quando, em certas sociedades mais evoluídas, as elites intelectuais se desligam progressivamente dos padrões da religião tradicional. A santificação periódica do Tempo cósmico revela se então inútil e insignificante. Os deuses já não são acessíveis por meio dos ritmos cósmicos. O significado religioso da repetição dos gestos exemplares é esquecido. Ora, a repetição esvaziada de seu conteúdo conduz necessariamente a uma visão pessimista da existência. Quando deixa de ser um veículo pelo qual se pode restabelecer uma situação primordial e reencontrar a presença misteriosa dos deuses, quer dizer, quando é dessacralizado, o Tempo cíclico torna-se terrífico: revela-se como um círculo girando indefinidamente sobre si mesmo, repetindo se até o infinito.

Foi o que aconteceu na Índia, onde a doutrina dos ciclos cósmicos (yuga) foi amplamente elaborada. Um ciclo completo, um mahâyuga, compreende doze mil anos. Termina se por uma “dissolução”, uma pralaya, que se repete de maneira mais radical (mahâpralaya, a “Grande Dissolução”) no fim do milésimo ciclo. Pois o esquema exemplar, “criação destruição criação etc.”, reproduz se até o infinito. Os doze mil anos de um mahâyuga são considerados como “anos divinos”, durando cada um deles trezentos e sessenta anos, o que dá um total de quatro milhões, trezentos e vinte mil anos para um único ciclo cósmico. Mil mahâyuga constituem um kalpa (“forma”); catorze kalpa fazem um manvantâra (assim chamado porque se supõe que cada manvantâra seja regido por um Manu, o Antepassado real mítico).

Um kalpa equivale a um dia de vida de Brahma; um outro kalpa a uma noite. Cem desses “anos” de Brahma, ou seja, trezentos e onze bilhões de anos humanos, constituem a vida do Deus. Mas mesmo essa enorme duração da vida de Brahma não consegue esgotar o Tempo, pois os deuses não são eternos e as criações e destruições cósmicas prosseguem ad infinitum.

É o verdadeiro “eterno retorno”, a eterna repetição do ritmo fundamental do Cosmos: sua destruição e recriação periódicas. Trata-se, em suma, da concepção primitiva do Àno Cosmos’; mas esvaziada de seu conteúdo religioso.

Evidentemente, a doutrina dos yuga foi elaborada pelas elites intelectuais, e, se ela



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